A QUARESMA E A CAMPANHA DA FRATERNIDADE

quinta-feira 16 de fevereiro de 2012

Irmãos e Irmãs!

 

Com a Igreja iniciamos na Quarta-Feira de Cinzas, o tempo da Quaresma, tempo privilegiado para a conversão com o desejo sincero de voltar ao projeto amoroso de Deus, realizado em Jesus, o “Servo Obediente” (cf. Is 43), que tendo amado até o fim glorificou o Pai e realizou a reconciliação de toda a humanidade. Com o evangelista Marcos nos unimos a Jesus. Batizado por João no rio Jordão, declarado pela voz vinda do Céu como Filho amado que agrada ao Pai, Ele assumiu publicamente a missão de anunciar o Reino de Deus. Nesta Quaresma vamos com Ele ao deserto, para renovar nosso Batismo, acolher de modo novo a Palavra de Deus e pela oração, jejum e a esmola – partilha, expressarmos nossa comunhão e solidariedade com os irmãos de caminhada, principalmente os pobres e doentes.

 

A Igreja no Brasil, desde 1964, vivencia a dinâmica e a espiritualidade quaresmal através da Campanha da Fraternidade, sempre a partir de uma situação nem sempre favorável à dignidade humana e com um anseio de transformação. O tema deste ano é: “Fraternidade e Saúde pública” e o lema: “Que a saúde se difunda sobre a terra” (cf. Eclo 38,8). A Campanha da Fraternidade abre caminhos para compreender e contextualizar de modo privilegiado, o sentido da Oração, do jejum e da esmola como um programa de volta ao Deus da vida. Na oração, o despojamento necessário para o encontro com o Senhor e com os irmãos. Mais que palavras a oração verdadeira concretiza-se no desejo de estar no Senhor e acolher o seu projeto de amor. No jejum, a perspectiva sempre mais ampla e segura para a realização da vida a partir da justiça exigida pelo Reino. Jejuar é mais do que privar-se daquilo que estamos acostumados todos os dias e que às vezes se torna supérfluo. O que é supérfluo em nós, pertence ao pobre e neste sentido o jejum deve ser sempre “denúncia da ausência de vida e de compromisso com o Deus da vida”. Jejuar é fazer a experiência do absoluto que é Deus. Só Ele pode saciar a nossa vida e nos fazer viver com sobriedade e dignidade. Na esmola – partilha, a promoção do próximo, sinal de justiça que relativiza o egoísmo e o desejo da posse. Dar algo a alguém é dar de si. É preciso cuidar para que a esmola não seja falsificada.

 

Refletir sobre a realidade da saúde no Brasil como propõe o objetivo Geral da Campanha da Fraternidade, em vista de uma vida saudável, suscitando o espírito fraterno e comunitário das pessoas na atenção aos enfermos e mobilizar por melhoria no sistema único de saúde, é uma exigência que pede algo mais do que o assistencialismo ou seja: “…mudança nas estruturas que geram enfermidades e mortes. Tais estruturas tornam-se visíveis nas situações de exclusão, na falta de condições adequadas e dignas de vida e no descaso, em certas circunstâncias, no atendimento oferecido aos usuários do sistema de saúde. Tudo isto é exposto não só pelos Meios de Comunicação Social, mas também pelos rostos sofridos e pelas mortes causadas pelo indigno atendimento” (texto base, no 24). Está em questão o compromisso de toda a sociedade a favor da cultura da vida, a favor da pessoa na sua inteireza e dignidade.

 

O texto base da CF, em sua primeira parte apresenta a saúde em números (estatísticas), com avanços e retrocessos, sobretudo, o desafio de ver a saúde pública como um patrimônio a ser cuidado não só pela esfera governamental, mas por toda a sociedade, com profissionalismo, humanização e espiritualidade. É um novo paradigma, o biopsicossocial, que não pode mais ser desconsiderado no campo da saúde. A segunda parte proclama que tudo o que Deus criou é bom e a existência humana é essencialmente um bem. O mistério do sofrimento e do mal que acompanha o ser humano não pode ser considerado um castigo de Deus. Se para o povo judeu a doença estava ligada ao pecado e à culpa e a procura do médico era vista por alguns judeus piedosos como falta de fé no Deus vivo e verdadeiro, não faltavam os recursos humanos para eliminar a dor e curar (cf. Eclo 38,7), o que revelava a providência de Deus com seus dons para restabelecer a vida. No Novo Testamento Jesus cura muitos doentes restabelecendo-os por inteiro, corpo e alma. Como o sofrimento pode ser castigo se Jesus se identifica com os que sofrem?(cf. Mt 25,36). O episódio do cego de nascença e a parábola do bom samaritano revelam a atenção e o cuidado d’Ele com os doentes e sofredores, atitude que deve inspirar sempre os que são seus discípulos e toda a Igreja. A terceira parte propõe caminhos para a ação transformadora no mundo da saúde. A Pastoral da Saúde aparece em primeiro lugar. Em sintonia com as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, ela prioriza a construção de uma sociedade solidária, a dimensão comunitária e a dimensão político-institucional visando sempre à dignidade e o cuidado com o doente como ressaltou o Papa Bento XVI por ocasião do Dia Mundial do Enfermo em2007. Ahumanização da pessoa, a educação para bem viver e a promoção do bem estar com o acompanhamento de seus membros compromete igualmente a família na busca da saúde e na superação do sofrimento.

 

A Quaresma nos leve a contemplar Jesus Crucificado em todos os que sofrem. Nossa presença amorosa e solidária junto a eles seja causa de alegria e certeza de ressurreição. Maria, saúde dos enfermos nos encoraje no caminho e, como ela, sejamos portadores da esperança de um novo céu e uma nova terá.

+ Sérgio Aparecido Colombo

Bispo Diocesano